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15º Curta Canoa (2025) – Dia 2

  • Foto do escritor: Messias Adriano
    Messias Adriano
  • 1 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura
Curta Canoa
Sertão à Deriva (Dir. André Moura Lopes e Mateus Uchôa)

No domingo (30/12/25), os dois filmes da Mostra Infantil do Festival Curta Canoa foram animações que, de certa forma, retratam o luto sob a perspectiva infantil. Ambas utilizam bem o potencial da animação como linguagem para se desgarrar das amarras do verossímil ou do real. Lá Na Frente (Dir. Márcio Andrade/PE) confia na assertividade da própria mensagem para trazer conforto por meio da imaginação lúdica da criança que perde o irmão e dispensa o uso de diálogos em sua trama.


No Início do Mundo (Dir. Camilla Osório de Castro/CE) é mais ambicioso ao expandir esse olhar e sustenta com maestria seus objetivos de encantamento. Transitando na mistura de um certo cinema fantástico que une Meu Amigo Totoro (a conexão com a natureza e suas imponentes árvores) com o recente A Natureza das Coisas Invisíveis (a ligação com a avó e suas curas por meio da fé e sabedoria), o filme é, até agora, o melhor da competitiva infantil por conseguir transpor à tela a magia da animação junto dos encantos do imaginário das histórias de avó dos muitos Brasis de interior.


Partindo para a competitiva principal, Sertão À Deriva (Dir. André Moura Lopes e

Mateus Uchôa/CE) salta aos olhos e ouvidos pela estranheza da tela dividida e beleza dos cânticos do Pajé Cícero Potyguara. Por se tratar de uma adaptação de uma obra imersiva, mas adaptada à tela plana, fica a sensação de um ajuste cuja obra principal precisaria ser de fato exibida nas muitas delas de uma exposição de museu. Mas eu duvido que a exibição no MIS (Museu da Imagem e do Som, em Fortaleza/CE) pôde ser acompanhada das palmas espontâneas das crianças presentes na praça do Curta Canoa. Também não deixa de ser outro tipo de experiência imersiva.


A Mulher Barco (Dir. Tibico Brasil/CE) é um filme comportado. Até demais. Documentário que celebra a obra de Sérvulo Esmeraldo “La Femme Bateau”, instalada na Ponte dos Ingleses, em Fortaleza/CE, o documentário faz questão de explicar de forma concisa o caminho que percorreu o artista até chegar na obra, bem como a inspiração (em depoimento do próprio Esmeraldo) e o motivo do nome. No entanto, a fórmula é seguida sem ousadias, resultando em um documentário morno e que talvez se estenda demais em seu aspecto jornalístico e deixe de lado qualquer arroubo cinematográfico.


Até as Pedras Se Encontram (Dir. Anna Diamante, Leni Mattos e Lici Luna/RJ) é uma homenagem desarranjada à obra de Carolina Maria de Jesus (autora de O Quarto de Despejo, dentre outras obras). Em um tom fabular e perdido, há pieguice demais no texto e no desdobramento dos acontecimentos, que carrega um incômodo fetichismo no sofrimento alheio. Talvez o fato de ter sido dirigido por um coletivo de três pessoas tenha atrapalhado o andamento e desenrolar da trama.


Mas difícil mesmo é falar de Meu Amigo Vini (Dir. Clerio Back/PR). A obra se assemelha ao material promocional de algum artista que, logo após lançar um álbum ou música nova, paga para produzir um vídeo institucional direcionado ao YouTube e aos possíveis consumidores da obra. Quem diabos é Vini Vidente? A sua magum opus é realmente uma música cujos versos dizem “sou um cara analógico em um mundo digital”? Então tá.


Existe algo de curioso e decepcionante em O Peso da Gota (Dir. Joelma Baldez e Victor

Cravin/MA). A ideia de um palhaço reagir às notícias sobre água que ele assiste na televisão causa certa expectativa inicial, mas que talvez não seja lá tão bem desenvolvida assim. Mais uma vez o didatismo entra em cena.


Os dois representantes internacionais da noite não poderiam ser mais diferentes. Bajo la Arena (Dir. Alvaro D. Ruiz - Colômbia) é um drama frouxo sobre a morte de uma cadela amada por duas mulheres. Em suas tentativas de abarcar muitas temáticas (o luto, a incapacidade de falar sobre a dor, as relações sociais entre patroa e empregada), o filme se mostra perdido no labirinto fácil que ele mesmo montou. Um ou outro plano esteticamente bonito não conseguem salvar a obra.


Daimara e o Baile Zumbi (Dir. Tom Hamburger e Natália Keiko - Brasil/Cuba) é um ótimo recorte sobre Cuba e o futuro representando pela infância. No meio das ruínas abandonadas, não deixa de ser curioso como Daimara e suas amigas tentam fazer um filme de terror e comentam sobre como primos, tios e parentes próximos se mudaram para México, Brasil ou Colômbia, ressaltando a crise migratória do local em meio aos velhos cartazes da política cubana. O próprio documentário acaba se transformando em um terror melancólico no terceiro ato, quando a dança dos monstros ocorre.


Curta Canoa
Daimara e o Baile Zumbi (Dir. Tom Hamburger e Natália Keiko - Brasil/Cuba)

A animação Pequeno B (Dir. Lucas Borges/MG) traz uma estética cujo esmero salta aos olhos. No maniqueísmo de opostos, o bem e o mal se diferenciam nas cores amarela e verde. Não é difícil lembrar de animações como As Aventuras de Jackie Chan ou diversos outros filmes que tratam da relação entre mestre e pupilo, aqui com um tempero a mais da estética street. No entanto, as referências são tantas que às vezes faltam certos elementos que identifiquem a obra como brasileira. Mas precisa? Bem, o fato é que a trama poderia se passar em qualquer centro urbano do mundo, o que não deixa resultar em um certo distanciamento.


Tamarindo Seco (Dir. Dinorá Melo/CE) é um filme mórbido e que (de novo neste Curta Canoa) vai passar pelo luto e o olhar infantil. Até chagarmos à tentativa da protagonista de experienciar a morte, alguns elementos chamam atenção, como a figura do vulto que Joana vê rapidamente (a própria morte?), outros revelam o caráter artesanal do cinema universitário, como um bebê de brinquedo sendo utilizado como infante. Ora, mas se até Bradley Cooper teve que lidar com um boneco-bebê em um filme dirigido por Clint Eastwood, por que este curta seria avaliado negativamente com base nisso? Há um mistério que o filme consegue sustentar de forma curiosa.


Muito pior é o que faz Espelho Meu (Dir. Alexandre Estevanato/SP). Representante de um melodrama pedestre e preguiçoso, a obra é muito parecida ora com novelas infantis do SBT, ora com vídeos institucionais sobre apoio a pacientes com câncer, com direito a música revigorante e uma construção de vilania fácil. Difícil salvar algo daqui.


A cobertura do 15º Curta Canoa (2025) segue a todo vapor aqui no Tardes de Cinema.

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