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15º Curta Canoa (2025) – Dia 4

  • Foto do escritor: Messias Adriano
    Messias Adriano
  • 3 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura
Curta Canoa
Catty Bete (Mariel Haickel/MA)

Se um filme me lembra Ilha das Flores, de Jorge Furtado, pode ter certeza de que saí bastante satisfeito da sessão. Foi o caso de Não É Sobre Pastéis (Tiago Ribeiro/MG), animação que utiliza o ambiente escolar como denúncia social por meio de uma narração descritiva e irônica. Assim como no curta de Furtado que tanto marcou, o texto aqui se desdobra em uma sequência lógica simples, mas ao mesmo tempo profunda, findando em uma avalanche trágica do estado atual das relações econômicas que desde muito cedo premiam aqueles que mais têm.


Dando sequência à Mostra Infantil, o curioso Tsuru (Pedro Anias/BA) é um stop motion singelo e bonito cujos personagens são papéis de origami. “Tsuru” é uma ave que no Japão simboliza saúde e prosperidade e o origami de tsuru acaba representando tais bonanças também. Sabendo disso, a tentativa de metamorfose do papel plano a um pássaro da sorte se torna ainda mais significativa no desdobrar (ou dobrar) da trama.


O Sobrevivente da Candelária (Felipe de Brêtas/RJ) é um documentário estranho. Dando voz a Nilson Euzébio, que representa o título do filme, os depoimentos do personagem são prejudicados por uma trilha sonora que destoa bastante do conteúdo da fala e que acaba tirando o peso do fatídico destino daquele homem que escapou por pouco de uma morte violenta e covarde.


Dizem os cineastas que comédia é um gênero bastante difícil de fazer. A corda bamba entre o sem graça e o que provoca riso é um desafio que talvez exija mais talento e desprendimento do que os dramas regulares. Dito isso, Na Peleja Brasileira (Victor Furtado/CE) fica em um meio termo comedido. Não sabemos no que vai dar nem como nos sentir em relação ao desejo e perrengues do palhaço Raimundo Novato, que ama o que faz e não quer ceder, apesar dos boletos batendo à porta. O filme tem ideias inspiradas (o plano com o cachorro de sapatos após imagens de sapatos representando trabalhos formais), outras nem tanto (o rosto animado do bebê), mas há inegável carisma no protagonista.


Curta Canoa
Não É Sobre Pastéis (Tiago Ribeiro/MG)

Catty Bete (Mariel Haickel/MA) charmosamente une uma estética de filmes mudos dos Anos 10/20 com um horror contemporâneo que chama a atenção. O suspense se sustenta por saber empregar bem as estratégias audiovisuais ao seu favor, como esconder o rosto da Bete em determinadas situações por meio das sombras, ou colocar um ruído brando nas situações tensas, por exemplo.


Mas também há esmero nas referências ao Expressionismo Alemão (é lindo pordermos enxergar o sonâmbulo Cesare, de O Gabinete do Dr. Caligari, na maquiagem de um determinado vilão) que amplificam a sensação de estarmos vendo algo que foi feito com bastante carinho com uma equipe atenta aos detalhes, que pode ser exemplificado pelo bom trabalho da direção de arte, que fica evidente nas duas estéticas empregadas no curta. Se cinema é uma arte coletiva, a equipe do curta deixou claro que deu tudo de si com o que tinham em mãos.


Saber Brincar (Leticia Diniz/CE), assim como alguns outros curtas apresentados no festival, se utiliza de uma linguagem institucional para apresentar um tema curioso. As crianças que brincam de Reisado, “vaquejada de pneu” e outros passatempos no Cariri não são suficiente para suplantar a engessada estrutura das cabecinhas falantes que vemos durante a projeção. Lembra um Globo Repórter.


Os dois filmes que representaram a Mostra Dragão do Mar na noite de terça-feira foram bem fracos. Serra do Evaristo (Z Nunes/CE) deixa clara a pouca noção cinematográfica da produção, enquanto Vicente Fininho, O Homem Que Virava Cachorro (Adriano Lima e Rui Ferreira/CE) é um desajeitado conto sobre uma lenda que aterrorizava a população rural, mas cuja pobreza na condução não transpõe à tela o poder das histórias de terror que ouvíamos quando criança. Se bem que, a depender de um garoto de uns 5 anos de idade que tomou um susto e se escondeu atrás da cadeira em uma determinada cena, talvez o curta encontre algum encantamento no público, mesmo que infantil.


Silenciados (Daniel Malvido - México) trata sobre um fotojornalista que, após registrar evidências que poderiam responsabilizar assassinos e sequestradores de três estudantes, passa a ser perseguido pelo grupo criminoso. Ainda acompanhamos um procurador que é obrigado a mentir por conta das ameaças, mas cuja culpa lhe persegue. Nem o tom de mistério, nem a tentativa de espiral da loucura conseguem se sustentar nos muitos personagens que surgem, o que acaba resultando em certa bagunça narrativa que ainda vai utilizar-se do clichê de alguém lavar as mãos e elas continuarem sujas. De sangue.


Curta Canoa
Hoje Eu Só Volto Amanhã (Diego Lacerda/PE)

Se alguém defende o uso de imagens geradas por inteligência artificial no cinema, por favor, assista a Vozes de Pindorama (Daniel Victor/BA) pra mudar de ideia. O curta tem reimaginações de tribos indígenas esteticamente horríveis, com uma cor lavada e incrivelmente falsa, além de uma trilha sonora chamativa e destoante. Um vídeo educativo sobre as muitas línguas indígenas que existiram e ainda sobrevivem, mas apresentado de uma forma que mais lembra um filme de terror (no mau sentido).


Os Finais de Domingo (Olavo Junior/CE) tem uma interpretação curiosa de Rodger Rogério, mas a sensibilidade do texto por vezes tateia no escuro assim como o próprio personagem principal, procurando uma profundidade que parece nunca vir à tona.


Hoje Eu Só Volto Amanhã (Diego Lacerda/PE) veio para sustentar ainda mais a força das animações na seleção do 15º Curta Canoa. No meio do carnaval de Olinda, o filme mistura diversos tipos de técnicas e traços animados (colagens, 3D, cartum), em uma verdadeira festa de ideias em cada ponto de vista, inclusive um especialmente feito para uma personagem sob efeito de drogas. É de se louvar também a qualidade das interpretações das vozes, que dão maior verdade ao que vemos em tela.


O curta que encerrou a noite foi Rixa (FeGus/SP). Um torcedor do Flamengo tem sua vida confrontada por um acontecimento trágico envolvendo briga de torcidas durante um jogo. O protagonista não é um vagabundo: trabalha, chega cedo, é carinhoso com a mãe. Mas possui na cabeça uma construção que tenta o tempo todo justificar bobagens e barbáries. Pra ele (e pra muitos outros torcedores do grupo que ele faz parte) a mulher que foi ferida estava “procurando confusão”, tendo em vista que não estava em casa. O filme tem uma direção competente e uma estética curiosa na passagem mais onírica. Talvez não seja tão marcante quanto outros do festival, mas anda longe de fazer feio.


Assim se encerra a cobertura do 15º Curta Canoa (2025). O festival de curtas-metragens possui bastante importância no calendário do cinema nacional e tem o charme de se passar em um local bastante acolhedor, a praia de Canoa Quebrada. Fica a torcida de que o festival se sustente e que venham muitas outras edições.

2 comentários


Mariel Soares Haickel
Mariel Soares Haickel
04 de dez. de 2025

😍 Lindas reviews! Obrigada pelo carinho!

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Milena Moura
Milena Moura
03 de dez. de 2025

Muito bom, ansiosa para acompanhar mais festivais

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