Digger | Crítica


Nos últimos filmes que dirigiu, Alejandro González Iñarritu vem demonstrando uma predileção pelo cinema de excessos: já foram gotas de suor e de sangue jogadas na lente em O Regresso, a grandiloquência técnica de um grande plano-sequência simulado em Birdman, ou autorreferências textuais jogadas a rodo em Bardo – Falsa Crônica de Algumas Verdades.
Junte essa vontade do diretor de sacudir o espectador pelos ombros com uma grande estrela do cinema de ação em um filme que estreia em salas IMAX e tenha um certo medo, porque dessa maximização pode sair algo muito bom, ou algo muito ruim. Escrevendo o que talvez seja uma outra versão de Riggan Thomson (Michael Keaton) de Birdman, ou mesmo de Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho) de Bardo, aqui temos Tom Cruise como Digger Rockwell, um dos homens mais poderosos do mundo e magnata do petróleo que se vê enrolado em um desastre ambiental que ameaça boa parte do planeta. A semelhança com os outros protagonistas vem em parte por conta das inseguranças e ansiedades reveladas pelo personagem, mas também em outras “surpresas” que o espectador deverá descobrir sozinho.
Como o roteiro mesmo põe na boca de um dos personagens (“Fulano (nome omitido), o problema não é você, você é um ótimo ator, mas tudo aqui é exagero.”) Digger assim constrói suas falsas verdades e brincadeiras: o elenco e o próprio protagonismo do Tom Cruise saem inocentes, mas por certo os exageros questionáveis existem e incomodam em muitos outros aspectos.

Nessa “sátira de sátiras”, o roteiro escrito a 8 mãos (4 roteiristas) põe no olho do furacão problemas e ansiedades ambientais modernos. Mas faço questão de lembrar: o olho do furacão é na verdade um local de ventos calmos e brandos. Ou seja, o que aqui é levantado como críticas sociais e econômicas principais, tratadas supostamente para ser matrioskas narrativas instigantes, acaba tendo um efeito nulo e sem apelo nenhum voltado aos problemas centrais. Isso porque, assim como em Bardo, o trabalho com a metalinguagem e as autoironias chamam mais atenção para si do que o que querem criticar. A tentativa de profundidade é substituída por um grito que objetiva chamar atenção, mas não chamar atenção para o problema, mas para o artista.
O insistente tique-taque do relógio do trabalho sonoro aumenta a ansiedade e urgência dos personagens nas situações ali representadas, mas talvez também aumentem a ansiedade do espectador para que o filme acabe logo, de tão aborrecidas que são as discussões. O suposto risco tomado aqui desvia do provocante e corajososo, encontrando uma trama cansativa e maçante, quase interminável. Quem sou para prever o que se passa na cabeça dos votantes, mas boa sorte pra Warner se quiser trabalhar esse filme para premiações.
Enquanto Eddington, um exemplo recente de sátira bem executada, aponta vários dedos para diversas pessoas e setores de maneira espirituosa, com humor ácido e situações esticadas pelo ridículo que funcionam comica e dramaticamente, as referências e acusações de Digger nunca decolam em seu humor cambaleante, que nenhum tipo de autocondescendência é capaz de desculpar. Aliás, é um tanto quanto assustador ver como Iñarritu o tempo todo pede desculpas ao jogar na nossa cara algumas verdades, o que talvez faça sentido se pensarmos na predileção do diretor e roteirista em escrever protagonistas inseguros.

Quando você aponta o dedo em acusação, um vai para o oponente, mas quatro vão pra você mesmo, quem está apontando. Aqui Iñarritu leva à risca esse ditado, criticando a própria comunidade artística. A ponto de serem quatro (ou quatrocentos) dedos para a arte e um dedo (talvez) para os verdadeiros vilões.
Em um filme que tanto faz questão de citar a importância do controle da narrativa, é inegável que há um tom pessimista curioso no encerramento. Digger fecha suas cortinas e deixa o espectador com a sensação de um grande vazio. Um grande vazio, é verdade, que vem de algumas feridas que ali foram expostas, mas que também vem do constrangimento que é procurar o humor e apenas encontrar isto: um vazio cercado de literalidades onde tudo (bem, literalmente) desmorona.

Nota: 2/5




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